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19 fevereiro 2025

O cemitério metálico

Num terreno esconde-se uma sucata de automóveis, um cemitério metálico onde o passado repousa sob o peso da ferrugem e do abandono. Ali, naquela sucata esquecida pelo tempo, repousam os restos de inúmeras histórias. Cada carro, agora coberto de ferrugem e poeira, terá sido um dia testemunha de jornadas longas, amores passageiros e despedidas silenciosas. 
Existem carros de várias épocas: uns mais antigos, com carroçarias arredondadas e cromados apagados pelo tempo, e outros mais recentes, mas igualmente castigados pelo sol e pela chuva. O vento sussurra entre as suas estruturas vazias, e os vidros partidos refletem os últimos raios de sol como se ainda quisessem brilhar uma última vez. Algumas portas mantêm-se entreabertas, como se os veículos aguardem passageiros que jamais chegarão. 
O velho carro azul, com os bancos rasgados e o volante gasto, talvez tenha pertencido a uma família que fez longas viagens de verão. A carrinha branca, enferrujada e sem motor, pode ter transportado sonhos e mercadorias de um trabalhador dedicado. 
Naquele lugar de esquecimento, a natureza começa a reclamar o que é seu. Arbustos crescem por entre as rodas, as raízes enroscam-se nas carroçarias e pequenos pássaros faziam ninhos onde antes rugiam motores. Cada veículo, imóvel e silencioso, guarda os segredos de quem um dia os dirigiu, memórias de uma era que se esvai lentamente, como um eco distante no tempo. 
E assim, sob o sol poente, a sucata permanece, um museu a céu aberto onde a ferrugem conta histórias que ninguém mais ouviu…  
























26 janeiro 2025

Mosteiro de Santa Maria de Seiça - Antes e depois

Visitei o Mosteiro de Santa Maria de Seiça em 2019, quando se preparava para ser intervencionado com obras de reabilitação. A sua função religiosa terá terminado por volta de 1834, tendo ficado desativado e sem atividade durante largos anos. Já no século XX foi transformado em fábrica de descasque de arroz. 
Alguns sensacionalistas intitulam-no de mosteiro assombrado só para captar público. Quando lá fui não vi assombramento nenhum e só fazia sombra porque era um dia com sol!... 
Socorrendo-me de pesquisas e consultas na internet, passo a resumir alguns elementos cronológicos que marcaram a história deste mosteiro. 
A mais antiga referência documental que se conhece sobre este mosteiro data de 1162. 
Em 1175, D. Afonso Henriques emite carta de doação do couto de Barra a D. Pelágio Egas, abade de Santa Maria de Seiça. 
A partir de 1195 o Mosteiro de Seiça passou para a Ordem de Cister, passando a albergar uma comunidade de monges brancos e em 1555 foi suprimido por D. João III e os seus bens foram destinados à Ordem de Cristo. 
Seria D. Sebastião que em 1560 restituiria o mosteiro novamente à alçada da grande abadia cisterciense, através da Bula de Pio IV que anulou a extinção do Mosteiro de Santa Maria de Seiça. 
Em 1572 procedeu-se à construção de um mosteiro inteiramente novo. 
Devido à sua proximidade do Colégio de Santa Cruz de Coimbra, o Mosteiro de Seiça passou a funcionar como centro de estudos filosóficos da ordem. 
Embora o convento se encontrasse bastante arruinado, nele se destacava o corpo da Igreja, considerada a peça mais interessante do conjunto edificado. Possuía nave única com capelas laterais intercomunicantes, possuindo originalmente coro-alto. O espaço do transepto, que seria coberto por cúpula, bem como a capela-mor, foram-se degradando depois da saída dos monges, em 1834, ficando completamente ao abandono e à mercê das intempéries e do vandalismo. 
Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o conjunto arquitetónico foi apropriado pelo Estado, tendo posteriormente sido entregue à Junta de Paróquia de Nossa Senhora do Ó do Paião a Igreja e a Sacristia do Mosteiro, através de Carta de Lei de 22 de Fevereiro de 1861, emitida por D. Pedro V. Desde então, ao longo de mais de século e meio, o Mosteiro de Santa Maria de Seiça foi sofrendo às mãos dos homens que nele apenas viam valor económico. 
Em 1895 a Junta de Paróquia vendeu o Mosteiro de Seiça a particulares e em 1911 foi vendido novamente. Os novos proprietários transformaram-no numa unidade industrial de descasque de arroz, a qual terá terminado a sua laboração por volta de 1976. 
Em 2002 o Mosteiro de Santa Maria de Seiça foi classificado como Imóvel de Interesse Público e em 2004 foi celebrada a escritura de compra do Mosteiro de Seiça por parte da Câmara Municipal da Figueira da Foz. 
Devoluto desde o encerramento da unidade fabril e dotado ao abandono, o que subsistia do mosteiro de Santa Maria de Seiça encontrava-se em avançado estado de ruína. Remanescem a igreja, amputada em metade do seu tamanho e sem a abóbada da nave, as alas norte e poente do claustro, os espaços destinados à portaria e hospedaria, parte das celas do dormitório do primeiro piso, o corpo respeitante à cozinha e refeitório e parte do segundo claustro.  



VÍDEO












































Antevendo-se a concretização da sua recuperação, o mosteiro foi reclassificado como monumento nacional em junho de 2023.

Após as obras de reabilitação e posterior inauguração, em 26 de janeiro de 2024, este imóvel deixou de ser motivo de exploração urbana. Obviamente!

As imagens que se seguem apresentam o estado atual do mosteiro, depois de recuperado, permitindo a reutilização deste monumento nacional de elevado valor patrimonial e cultural, devolvendo a sua identidade à população e ao visitante, permitindo a fruição deste espaço, e o desenvolvimento da cultura e do conhecimento histórico, através da sua preservação e sustentabilidade futura.