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06 fevereiro 2026

Entre paredes nuas e silêncio

A quinta erguia-se isolada, longe de tudo, como se tivesse sido apagada do mapa por vontade própria. Não havia sinais de vida, nem marcas recentes de passagem. Apenas silêncio e vento. 
A casa estava vazia. Não destruída, não saqueada — simplesmente abandonada. Paredes nuas, portas entreabertas, janelas escancaradas por onde a luz entrava sem obstáculos, desenhando sombras imóveis no chão coberto de pó. Cada divisão parecia ter sido deixada à espera de alguém que nunca voltou. 
Não havia móveis, nem objetos pessoais. Nada que contasse quem ali viveu, quantos eram, ou porque partiram. A ausência era tão completa que se tornava suspeita. Que urgência foi essa que levou tudo, menos o próprio lugar? 
Só um espaço contrariava o vazio absoluto: uma pequena arrumação onde se acumulavam garrafas vazias, alinhadas, esquecidas... Eram o único rasto de repetição, de hábito, de alguém que ali permaneceu tempo suficiente para deixar marcas — ainda que sem nome. 
Quem de lá saiu por último? 
Foi uma fuga, uma perda, uma decisão inevitável? 
Ou ninguém teve coragem de ficar? 
A quinta permanece assim, suspensa entre o que foi e o que nunca saberemos. Um lugar onde o silêncio pesa mais do que qualquer resposta. 





























27 novembro 2025

15 lugares de 2019

Ao longo do ano de 2019 foram 155 os lugares visitados. Foi um dos anos com maior atividade urbex com uma diversidade de assuntos: de habitações vulgares até palácios, património do estado, motivos religiosos, equipamento industrial e militar, viaturas, etc. 
Ao todo, foram cerca de 24.500 fotografias resultantes de muitas horas passadas em interiores e exteriores, para além do tempo de deslocação e dos quilómetros percorridos. 
As 15 imagens agora partilhadas representam uma ínfima parte do portfólio constituído naquele ano.



















18 outubro 2025

O lagar do povo

No coração duma aldeia rural, o lagar de azeite era o centro de uma das atividades mais antigas e nobres: a extração do azeite. 
Aqui chegavam as azeitonas colhidas nos olivais vizinhos, transportadas em cestos ou dornas. Eram primeiro despejadas na moenda, onde a mó de pedra as triturava lentamente até formar uma pasta espessa. 
Seguia-se a prensagem, antigamente feita com prensas manuais ou hidráulicas, que separavam o sumo oleoso da polpa e da água. O líquido resultante era recolhido nas bacias de decantação, onde o azeite, mais leve, subia à superfície, sendo então separado e guardado em talhas ou depósitos de ferro. 
O lagar, impregnado do aroma intenso da azeitona moída, era símbolo de esforço coletivo, tradição e sustento. Cada gota de azeite representava o fruto de uma arte ancestral, passada de geração em geração.