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24 outubro 2026

A Casa do Perneta

Há casas que se abandonam. Outras parecem ter sido deixadas para trás. 
Como se, a determinada altura, alguém tivesse decidido partir, deixando a vida suspensa entre paredes. Esta é uma delas. 
Isolada, silenciosa, permanece à margem do mundo, entregue ao tempo e ao esquecimento. Mas basta atravessar a entrada para perceber que nem tudo desapareceu. 
O mobiliário continua aqui. Roupa, calçado, sofás, um colchão… fragmentos de uma vida que, um dia, foi preenchida por gestos tão banais como os nossos. E, no entanto, há qualquer coisa de estranho neste lugar.
Um guarda-chuva aberto, imóvel, como se ainda esperasse alguém que nunca mais chegou. Radiografia de crânio, testemunha silenciosa de uma história que desconheço. E brinquedos! Vestígios de uma infância que contrasta com o abandono que agora domina estas divisões. 
Mas foram outros objetos que acabaram por dar nome a este lugar. 
Próteses de perna! 
Encontradas no interior da casa, permanecem como um enigma. Quem as usava? Que caminho percorreu? E que história se esconde por detrás da ausência daquele a quem um dia pertenceram? Não sabemos. E talvez seja precisamente isso que torna este lugar tão inquietante. 
Chamaram-lhe a casa do perneta. Um nome nascido de dois objetos, de uma ausência e de perguntas para as quais não há respostas. 
Aqui, não encontramos fantasmas. Encontramos os vestígios de uma existência real, desfeita em objetos e deixada à mercê da poeira e do silêncio. 
O tempo continua a avançar. As paredes envelhecem, as memórias apagam-se e aquilo que um dia teve significado transforma-se em cenário. Um dia, também estes vestígios desaparecerão. E quando isso acontecer, talvez ninguém se lembre de quem viveu aqui… de quem deixou para trás as próteses que deram nome à casa. Ficará apenas o vazio. E o silêncio. 
Porque, por vezes, o mais inquietante não é aquilo que encontramos numa casa abandonada… É tudo aquilo que nunca chegaremos a saber sobre ela. 


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